quinta-feira, 7 de maio de 2009

III

Matilde estás sentada diante do televisor velho,
embalada pelos anos que carregas nos teus membros tão fracos,
acompanhada pela voz de quem resume um dia.

Estás perto, tão perto de mim que caindo o meu corpo torpe te apanharia.
Envolvem-te as cores - são tantas - do manto de lã que a minha mãe fez,
traças um vulto encorpado de memórias velhas,
justificas uma saudade que por pouco esqueci.

Moves-te , moves-te de súbito acrescentando um pormenor,
Cai-te o manto mas já não sentes o frio, sonhas
Preocupas-te com ele só com e ao despertar.

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Porque nunca se desfez o que por tanto demos
Passadas mentiras, gritos, filhos, desilusões e loucuras,
egoismos feios e....tantas coisas um ao outro?

Antes e depois de ti quantas não se sentaram na poltrona?
P'ra quantas não olhei adormecidas com vontade de as despertar
com a fome que me dá de ver, querer e de sentir
e a mente dilúida numa loucura que tu me sabes ser própria?

Já nem sei, já nem sei matilde, o catálogo que era este que deixei na minha mente velha
Incapaz pelos anos de por nomes, corpos e actos em categorias
De sentir nos sentidos o que cada uma me deu.
"lembro-me da última da primeira não me vou esquecer!"
Disse-me uma vez o míudo que escrevia por mim inspirado
já sentido que de nada lhe servia enumerar e contar o que um dia fizera,
Talvez estivesse certo, é tão pouco o que importa e nos resta:
Onde estão as outras todas, as que percorri com os meus dedos agora incapazes de tudo?
Nem o meu nome assino certo como algúem que não sei me ensinou a escrever.
Nenhuma forma é como da última vez que a deixei, nem a tua matilde,
Por mais que me recorde de algo será só em mim que existem.

Detalhes, há detalhes que não esqueço como o roberto nos disse.
Extremidades que cobriam qualquer horizonte
Gestos que prendiam o olhar de quem sente o que vê e
acima de tudo por experiência
o que qesrutura um movimento que nunca nunca nunca nunca soube inocente
Matilde, matilde, sempre me conheceste e me deixaste ser assim
O que isso implicava era tão mais pequeno do que tudo o resto...

Passaram anos. Cansaste-te dia-a-dia ao ponto de te ires em cada um deles mais cedo,
e o teu corpo contigo sob o meu olhar mais ou menos atento.
Agora dormes onde muitas outras se sentaram com as cores que minha mãe deixou,
Vou pegar em ti como antes, embalar-te um pouco nunca te deixando cair.
Fui um para muitas fui um só para ti